Introdução
Este tour foi pensado para dar a conhecer a cidade de Lisboa e a nossa gastronomia a um grupo de portugueses. Além de cultura e gastronomia, este tour é também sobre as histórias das pessoas e dos locais que iremos visitar.
Esperamos que seja um momento divertido para os nossos convidados e que possamos contribuir para suscitar a curiosidade em aprender mais sobre os temas abordados nesta actividade.
Parte do conhecimento transmitido neste tour vem dos livros e ensaios publicados pela FFMS. A título de exemplo podemos referir o livro "Mandem Saudades", sobre a emigração portuguesa da Madeira para o Hawaii e a cultura da cana-de-açúcar, o livro o "Macaco Bêbado foi á Ópera" ou "Quinas e Castelos - Sinais de Portugal", entre vários outros.
Itinerário
Miradouro Parque Eduardo Vii
Introdução do tour e das áreas que iremos visitar. Breve enquadramento da história e evolução da cidade de Lisboa e de Portugal. Explicação da criação da Avenida da Liberdade e do Parque Eduardo VII.
Prova das melhores parras de Lisboa, da Pastelaria Chikapa.
Cacho Dourado
Uma tasca com várias décadas de história junto ao Marquês de Pombal. Comida tradicional bem feita, a preços acessíveis e no centro da cidade - uma espécie em vias de extinção.
Aberto em 1970, o Cacho Dourado era uma antiga casa de pasto. Na parede por trás do balcão quando se entrava havia vários barris de vinho cada um da sua qualidade - vinho corrente e vinho especial (de melhor qualidade) - daí o nome Cacho Dourado. Ao balcão servia-se vinho a copo com 3 medidas - copo 1, copo 2 e copo 3.
O dono desta casa é o Sr. Luís, um minhoto de gema, natural de Paredes de Coura (como em tantas outras das melhores tascas de Lisboa - o Minho é provavelmente a região responsável pelo maior número de tascas de grande qualidade existentes em Lisboa).
Em 1970 abriu com o seu irmão o restaurante que vemos hoje e, desde então, consolidaram a sua posição como um dos melhores restaurantes tradicionais desta zona de Lisboa. Além do turista ocasional, ao almoço é frequentado maioritariamente por trabalhadores de diversas áreas, incluindo empresas, consultoras e algumas das melhores sociedades de advogados.
O painel de azulejos da primeira sala é uma representação da escultura concebida por António Teixeira Lopes em homenagem a Eça de Queirós, no qual a figura do escritor é acompanhada por uma alegoria à Verdade. A obra traduz, em linguagem naturalista, a centralidade deste conceito na obra literária de Eça. A rua onde se situa o Cacho Dourado é, precisamente, a Rua Eça de Queirós.
Neste restaurante os convidados irão provar dois pratos típicos do Minho - o bacalhau à Cacho Dourado (muito próximo do bacalhau à minhota) e a vitela barrosã estufada com batatas e cenouras assadas. Para acompanhar serão servidos um vinho branco e um vinho tinto.
Garrafeira Estado D’Alma
Esta garrafeira abriu em 2011 pelas mãos de Tiago Paulo, originalmente na Rua da Junqueira. O nome da garrafeira vem da firma da sociedade que Tiago adquiriu em 2011 ao comprar um antigo restaurante nessa rua.
A garrafeira actual abriu em 2025 e resulta de um investimento significativo pelos seus donos para modernizar e expandir o negócio. É um negócio familiar, além de Tiago também aqui trabalham a sua esposa Susana, um filho do casal, um sobrinho e um primo - no total a equipa conta com 16 pessoas.
Aqui é possível provar dezenas de vinhos a copo, fazer provas de vinhos com produtores e refrescar os vinhos adquiridos em apenas 5 minutos, com um moderno abatedor de temperatura disponível na loja.
Têm mais de duas mil referências de vinho à venda, não só de Portugal mas também de vários outros países, como França, Itália, Argélia, África do Sul e vários outros.
Prova de 3 tipos de vinho de 2/3 regiões diferentes - vinho branco da região de Lisboa (DOC de Bucelas), vinho rosé da região dos Açores e vinho tinto de Lisboa (sub-região de Sintra).
A história do vinho e de Portugal remonta há mais de 2 mil anos, desde o tempo da presença dos fenícios e dos romanos na Península Ibérica.
Romeyra Arinto Colheita 2025
Região: Lisboa (Serra de Montejunto).
Castas: 100% Arinto.
Método de produção: Fermentação em inox com temperatura controlada, privilegiando a pureza da fruta e a frescura característica da casta.
Notas de prova: Cor citrina brilhante, aroma a lima, limão e maçã verde, com ligeiras notas florais. Na boca apresenta elevada acidez, grande frescura, final longo e muito mineral.
Conhecida pela sua capacidade de envelhecimento, a influência atlântica da região confere-lhe uma marcada salinidade e elegância.
A casta Arinto é uma das castas brancas mais emblemáticas de Portugal e, em especial, de Bucelas, que é uma das suas DOC de excelência. O Arinto de Bucelas era um dos vinhos favoritos de Shakespeare e do General Wellington.
A casta Arinto, especialmente a produzida em Bucelas, goza de prestígio em Inglaterra há mais de quatro séculos. No século XVI, acredita-se que William Shakespeare fez referência a este vinho na peça Henry VI, Parte II, onde surge mencionado como 'Charneco', nome de uma localidade próxima de Bucelas. Mais tarde, durante as Invasões Francesas, o General Wellington apaixonou-se pelos vinhos de Bucelas enquanto combatia em Portugal e levou-os para Inglaterra. Na corte britânica ficaram conhecidos como Lisbon Hock ou Portuguese Hock, tornando-se um dos vinhos brancos mais apreciados pela aristocracia inglesa do século XIX
Materramenta Rosé 2024
Região: D.O. Biscoitos, Ilha Terceira, Açores.
Castas: Produzido a partir de castas cultivadas em solos vulcânicos, em pequenas parcelas protegidas por muros de pedra ("curraletas").
Método de produção: Vindima manual, seleção rigorosa das uvas e fermentação a baixa temperatura para preservar a frescura e a expressão aromática.
Notas de prova: Aroma delicado de frutos vermelhos frescos e citrinos, com uma forte componente mineral. Na boca é seco, vibrante, muito fresco e termina com uma característica nota salina.
As vinhas crescem praticamente sobre lava basáltica, a poucos metros do mar. O clima atlântico e os solos vulcânicos dão origem a vinhos muito minerais e únicos no panorama português.
Infinitude Indie Pinot Noir 2025
Região: Lisboa
Castas: 100% Pinot Noir
Método de produção: Vinho de baixa intervenção, procurando expressar a casta e o terroir com mínima intervenção na adega.
Notas de prova: Aromas elegantes de cereja, framboesa e romã, acompanhados por notas subtis de especiarias e ervas secas. Na boca é leve, fresco, com taninos muito suaves e excelente equilíbrio.
A casta Pinot Noir é uma das castas mais exigentes do mundo, raramente associada a Portugal. Este vinho demonstra como a influência atlântica da região de Lisboa permite produzir um estilo fresco, delicado e muito gastronómico, ideal para servir ligeiramente refrescado (14–16 °C).
A selecção destes vinhos procura dar a conhecer regiões e/ou castas menos conhecidas ou valorizadas pelo público português, por um lado, e por outro colocar os nossos convidados fora da sua zona de conforto.
Além disso, estes três vinhos representam três expressões muito diferentes do vinho português contemporâneo: a elegância atlântica da casta Arinto, a identidade vulcânica dos Açores e uma interpretação portuguesa (rara em Portugal) de uma das castas mais prestigiadas do mundo, a Pinot Noir.
A Ginjinha – Espinheira
Um tour em Lisboa não pode deixar de incluir uma ginjinha, o licor mais típico de Lisboa.
Embora actualmente seja produzido em diferentes regiões de Portugal, a ginjinha é originária de Lisboa (ginjinha de Óbidos é mais recente e a conjugação com copo de chocolate está relacionada com o festival do Chocolate em Óbidos). O primeiro estabelecimento que começou a vender este licor foi A Espinheira, fundado em 1840 por Francisco Espiñeira Couziño - natural da Galiza. Há uma grande ligação entre Portugal e a Galiza, a começar pela língua que era originariamente a mesma. Muitos Galegos emigraram para Portugal ao longo dos séculos - alguns deles ligados à abertura de alguns dos melhores restaurantes/marisqueiras Lisboetas - exemplo do Ramiro e do Gambrinus (ou o Pinóquio).
Há um ditado galego que diz: "Se no has ido á Lisboa, no has visto cosa boa"
A época das ginjas é em Junho/Julho e produção é feita principalmente com 4 ingredientes: ginjas, aguardente bagaceira, açúcar e água.
Manteigaria Silva
Uma das melhores lojas tradicionais de Lisboa, com mais de 100 anos de história.
Actualmente pertencente à família Branco, que comprou uma quota maioritária na empresa a 29 de Dezembro de 1989.
Especializada na venda de bacalhau, queijos, presunto e enlatados, entre outros produtos. A qualidade, preços justos e serviço simpático e profissional garantem o sucesso desta loja ao longo dos tempos. Os filhos, José e Laura, trouxeram novo ânimo e fôlego ao negócio e em 2014 a Manteigaria Silva abriu uma loja no Mercado da Ribeira. Mais tarde José Avillez convidou-os a estarem presentes no Bairro do Avillez.
Desta loja levaremos um presunto com 24 meses de cura e um painho, ambos de porco preto português, para provar na última paragem - o Grupo Desportivo da Mouraria.
Solar Da Madalena
A bifana é provavelmente a sandes mais típica em Portugal - mas há bifanas e bifanas.
O Solar da Madalena é um pequeno snack-bar aberto há alguns anos por um casal do Brasil, a Isabel e o Clayton. Isabel trabalhou alguns anos nas icónicas Bifanas do Afonso e um dia viu a oportunidade de abrir um espaço ao fundo da mesma rua. Decidiu arriscar e abriu um espaço que era metade do espaço que vemos actualmente. O negócio corria bem e o casal decidiu recentemente expandir e arrendar a loja ao lado, que estava disponível. Assim nasceu o espaço que vemos actualmente.
O segredo de uma boa bifana está em primeiro lugar na carne - uma mistura de lombo e de pá, cortada muito fininha por um talhante tão experiente quanto paciente. Depois vem a receita do molho da panela mágica - embora secreta sabemos que leva vinho branco, muito alho, banha e sal. Pode conter também um pouco de tomate ou pimentão, embora os donos não o revelem - afinal o segredo é a alma do negócio.
Grupo Desportivo da Mouraria
Um grupo desportivo escondido no coração da Mouraria e desconhecido por muitos Lisboetas, num antigo palácio do séc. XVIII, que pertenceu à família dos Távora.
Fundado em 1936, o Grupo Desportivo da Mouraria está neste edifício desde 1973 e desde então é um ponto de encontro cultural e de lazer da população deste bairro.
Tem diferentes atividades desportivas e culturais: a escola de fado, o futebol, a luta greco-romana, entre outras. É também a sede e local de ensaio das Marchas Populares da Mouraria, que começam a produzir os seus adereços e a ensaiar cerca de 3 meses antes do grande evento, o desfile das marchas dos vários bairros Lisboetas na Avenida da Liberdade na noite de 12 para 13 de Junho.
Dentro deste palácio podemos encontrar belíssimos painéis de azulejos e pinturas que remontam à segunda metade do séc. XVIII. Cá fora, conta com um terraço com uma vista privilegiada sobre a colina do Castelo, a Graça, a Mouraria, a Baixa, o Príncipe Real e o rio Tejo, entre outras zonas mais modernas a Norte.
É neste local com um encanto especial e misterioso que encerraremos o nosso passeio. Esperamos que tenham gostado e que esta tenha sido uma experiência enriquecedora.
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Muito obrigado e até breve, 🙏
Equipa Food for Thought - Tours & Travels